Recentemente li na internet que um determinada ONG alemã apresentou, de forma inusitada, um excelente exemplo de marketing social. Em alguns cinemas da Alemanha, o público entrava para assistir aos filmes e se deparava com diversos cobertores dobrados, colocados um em cada poltrona. Nada foi dito ou explicado e, conforme os primeiros anúncios e trailers iam passando, a sala começava a esfriar, chegando a temperaturas baixíssimas, similares às das madrugadas de inverno naquela região. Então, subitamente, uma mensagem começava a aparecer, mostrando moradores de rua em muita dificuldade, assim como seus próprios relatos narrando os problemas causados pelo frio intenso. Ao final da mensagem, um deles, inclusive, em tom de bom humor, dizia para que não incomodassem mais as pessoas no cinema e as deixassem assistir a seus filmes.

A campanha finalizava avisando às pessoas que, em cada cobertor que receberam, havia um código, que poderiam ler com seus celulares, e efetuar uma doação espontânea para ajudar os moradores de rua, os sem teto. O resultado foi surpreendente. Após realizarem a experiência em diversas salas de cinema de todo o país, computaram um retorno de noventa e cinco por cento, isto é, noventa e cinco por cento das pessoas que estiveram nessas salas de cinema se comoveram e fizeram doações.


Gostei da experiência. Lembrei-me dela neste Dia da Mulher. Não seria uma má ideia propor a cada “macho” a possibilidade de viver uns dias de “mulher” para passar por todo o sofrimento que ela passa. Sentir na própria pele é a melhor maneira para dar-se conta do sofrimento alheio e desenvolver a verdadeira empatia para com @ outr@. Não precisa pedir a Deus várias reencarnações como acontece em outras culturas. Bastaria cultivar o saudável costume de se colocar no lugar d@ outr@, de enxergar o mundo a partir de seu ponto de vista, senti-l@ como companheir@, compreendê-l@ melhor na sua especificidade e, sobretudo, acolhê-l@ com toda sua originalidade e suas diferenças, sentidas não mais como uma ameaça, mas como uma fonte de enriquecimento.

A empatia é a melhor forma para sair do individualismo e da indiferença e, no caso específico, da relação com as mulheres, nos ajudaria a nos despojarmos do machismo, do patriarcalismo. da discriminação, da violência de gênero e de outra qualquer forma de agressão que praticamos contra elas.

É impressionante constatar como estas perversões continuam resistindo em nossas estruturas pessoais e, consequentemente, sociais, culturais, políticas, econômicas e sociais. Estão tão enraizadas em todos os âmbitos das nossas consciências ao ponto de contagiar todo mondo como se fosse algo de natural. “Ainda não se conhece a motivação do crime”. É com estas palavras que uma jornalista conclui sua reportagem a respeito do enésimo caso de violência contra a mulher. Existe motivação para um homem agredir a companheira? E qual poderia ser: o arroz queimado, a roupa malpassada, uma misteriosa ligação telefônica, um abraço dado a um amigo encontrado depois de tanto tempo, uma roupa curta, uma olhada ambígua para outro homem, o fracasso do relacionamento, uma infidelidade…? E aí? Isso bastaria a justificar tamanha barbárie? Claro que não. Não há motivação para a violência, inclusive para aquela praticada contra as mulheres.

Ninguém tem direito de agredir outra pessoa, pouco importa o meio utilizado, se verbal, físico o psicológico. A violência é sempre injustificável. Procurar a motivação é oferecer um álibi ao agressor e criminalizar a vítima. A única razão da barbárie contra a mulher é o machismo perverso que ainda habita o lado escuro do ser humano que o leva a pensar que ele não é companheiro, assim como Deus quis que fosse, mas o dono da mulher que é despojada de sua dignidade e tratada como “propriedade privada”, objeto a ser usado conforme o que lhe passa na cabeça e para satisfazer seus capriches.

O Criador nunca concedeu ao “macho” o poder de dominar a mulher. Quem pensa o contrário está manipulando a Sagrada Escritura. No Seu projeto, o homem e a mulher são criad@s à sua imagem e semelhança em grau igual. Ambos, portanto, são depositári@s da mesma inata dignidade que ninguém tem o poder e o direito de violar. menosprezar ou diminuir. Qualquer ato contra a dignidade da mulher é uma afronta à vontade de Deus. Tanto a mulher como o homem são os @s únics seres que entre as criaturas do mundo visível que Deus Criador quis por si mesmo: são, portanto, pessoas. O ser pessoa significa que amb@s tendem à realização plena fazendo de si mesm@s um dom sincero. Modelo de tal interpretação da pessoa é Deus mesmo como Trindade, como comunhão de Pessoas. Dizer que a mulher e o homem são criad@s à imagem e semelhança deste Deus quer dizer também que são chamad@s a existir “para” @s outr@s, a viverem um(a) em função da felicidade do/a outr@ e não para praticar maldade.

Toda relação construída conforme os paradigmas da conquista, da depredação, da dominação e da violência contradizem o projeto de Deus. “Explorar as pessoas é um crime que lesa a humanidade: é verdade. Mas explorar uma mulher é algo ainda pior: é destruir a harmonia que Deus quis dar ao mundo. É destruir toda a obra da criação.” (Papa Francisco – Missa Santa Marta 09/02/2017. O homem e a mulher são chamad@s, desde o início, não só a existir “um ao lado da outra” ou “junt@s”, mas também a existir reciprocamente “um/a para outr@, numa relação de amor e de cuidado recíproco cooperando, em pé de igualdade, para administrar o mundo bem vista do bem comum (Carta Apostólica “A dignidade da mulher).. Resgatar todo isso deve servir a desmascarar todo uso perverso de Deus para justificar o injustificável.

O patriarcalismo, o machismo, a violência de gênero… desfiguram os ser humano, o desumanizam. Jesus de Nazaré deixou isso bem claro quando se colocou contra os perversos paradigmas discriminatórios de sua época, reconhecendo publicamente a dignidade das mulheres. “O modo de agir de Cristo, o Evangelho de suas obras e palavras é um protesto coerente contra tudo quanto ofende a dignidade da mulher. Por isso, as mulheres que se encontram perto de Cristo reconhecem-se a si mesmas na verdade que ele « ensina » e que ele « faz », também quando esta verdade versa sobre eventuais situações de pecado em que vivem. Sentem-se «libertadas» por esta verdade, restituídas a si mesmas: sentem-se amadas de «amor eterno», por um amor que encontra direta expressão no próprio Cristo.

No raio da ação de Cristo, a posição social delas se transforma. Sentem que Jesus lhes fala de questões sobre as quais, naquele tempo, não se discutia com uma mulher” (Dignidade da Mulher, nº15). Todas as pessoas que pretendem seguir seus passos devem aprender dele e empenhar-se cada vez mais nessa importante luta para que todas as mulheres possam viver com dignidade. “As mulheres têm muito a dizer-nos na sociedade atual. Às vezes somos demasiado machistas, e não deixamos espaço à mulher. Mas a mulher sabe ver as coisas com olhos diferentes dos homens”. (Papa Francisco – 18 de Janeiro de 2015, na Universidade de São Tomás, em Manila, Filipinas Encontro com os jovens). Obrigado a todas as mulheres que não desistem da luta e contribuem com coragem e ousadia na construção de um mundo mais acolhedor e mais justo.

(pe. Xavier Paolillo, missionário comboniano)

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