Ao narrar a paixão de Jesus o evangelista Mateus insiste em evidenciar o fracasso dos discípulos. Apesar de ter vivido com Jesus por três anos, nenhum deles O defende. Judas o trai, Pedro o renega, os outros fogem. O objetivo de Mateus não é criticá-los e julgá-los, nem tampouco escandalizar e desencorajar os leitores, mas enfatizar que o amor de Jesus é tão grande que supera a traição dos discípulos! Mateus faz isso para ajudar os/as cristãos/ãs de seu tempo. Por causa da dura perseguição, muitas pessoas ficaram desanimadas e abandonaram a comunidade. Arrependidas, se questionavam se era possível retornar, se Deus as acolheria e perdoaria. A resposta de Mateus não deixa dúvidas: nós podemos romper o relacionamento com Jesus, mas Ele nunca o rompe conosco.


É interessante reparar que Jesus dá a triste notícia de Sua traição justamente no momento em que estão sentados a mesa, num clima de profunda intimidade. Inclusive, quando responde à pergunta dos discípulos a respeito da identidade do traidor diz “que é aquele que comigo põe a mão no prato”. Não é um estranho. É alguém de família. São os “amigos” que traem, renegam e abandonam Jesus, não seus “inimigos”. Mesmo assim, Jesus reparte o pão com eles. Doa-se a eles, apesar de conhecer suas fragilidades, traições e infidelidades. A celebração da primeira Eucaristia acontece num contexto de pecado. É muito importante refletir sobre isso.

Quando celebramos a Eucaristia no início, dizemos: para celebrar a Eucaristia dignamente, reconhecemos que que somos pecadores, traímos, negamos e fugimos. Antes de nos aproximarmos da Eucaristia, dizemos “Eu não sou digno”. E, então, por que estamos indo? Justamente porque não somos dignos. Não merecemos. Jesus é um dom absoluto de Deus para mim que O traio, O renego e O abandono. Justamente porque sou assim que preciso d’ele, de Seu amor. O acesso ao dom da Eucaristia depende d’Ele. Basta um Sua Palavra e eu serei salvo.

A Eucaristia não é meu prêmio, mas a minha salvação. Não é o banquete para os “justos”, mas o viático dos pecadores. É a descoberta daquilo que Ele está disposto a fazer por mim que, como acontece com Pedro, me faz envergonhar das minhas infidelidades até o ponto de derramar lágrimas de sincero arrependimento e suplicar a Sua Graça para que possa cada vez mais me assimilar a Ele. Bendito seja Deus que não me ama como eu o amo, mas me surpreende sempre com sua misericórdia que não tem preço. (pe. Xavier Paolillo, missionário comboniano)

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